Publicado em 22.08.2006
CONCEIÇÃO GAMA
Júpiter Maçã, cantor e compositor gaúcho que se apresenta no Recife em 1º de setembro, dia de abertura do festival Coquetel Molotov, é um exemplo de artista que reinventa a carreira a cada novo álbum. Já se passaram oito anos desde a última vez que o gaúcho Flávio Basso, mais conhecido como Júpiter Maçã (junção do apelido de seu avô com o nome da gravadora dos Beatles), esteve por aqui, com seus famosos terninhos mod, para um show no festival Abril Pro Rock. Agora, a psicodelia efervescente de Júpiter Maçã está de volta para um show que promete ser histórico.
JORNAL DO COMMERCIO – Você foi o artista mais votado na comunidade do Orkut para entrar na programação do Festival Coquetel Molotov. Como você se sente em saber que tem tantos fãs em Pernambuco?
JÚPITER MAÇÃ – Sério? Eu não estava sabendo disso! Que bacana!!! Ah, eu acho que isso de repente se dá por uma identificação quase telepática que transcende as distâncias geográficas… As pessoas que gostam de música psicodélica têm muito disso. Eu me sinto lisonjeado e muito gratificado por as pessoas lembrarem o meu nome.
JC – Você é um artista conhecido por gravar todos os instrumentos e vozes dos seus discos. Como será o show? Quem vai acompanhá-lo?
JM – Com esse meu último disco, a coisa foi um pouco diferente. Os músicos que me acompanham gravaram algumas coisas comigo também. Para essa turnê, estão tocando comigo Eduardo Dolzan (bateria), Ray-Z (guitarra), Cabelo (baixo) e Talitha Freitas (percussão e back vocals). Eles também vão me acompanhar para o show do Coquetel Molotov.
JC – O repertório do show que você fará no Recife será baseado no seu último álbum ou uma retrospectiva da sua carreira?
JM – Vou tirar material dos meus quatro discos, mas vou ser mais enfático no último mesmo. Ah, também vou mostrar coisas inéditas! Tem um disco meu que está para sair por uma gravadora espanhola, a Elephant Records, chamado Una tarde en la frutería. Ele tem previsão de lançamento para outubro.
JC – Vai ser lançado no Brasil também?
JM – Eu gostaria, mas ainda não sei… Ah, eu também pretendo recatalogar meus três primeiros discos, mas isso é outra história sem definição de data nenhuma ainda. E pra lançar o Una tarde en la frutería aqui eu vou traduzir o nome para Uma tarde na fruteira.
JC – E as músicas vão ser em português ou espanhol?
JM – Não, é tudo em português! Só o título que está em espanhol mesmo. Mas eu pretendo depois fazer umas coisas em espanhol, sei lá… A língua espanhola soa bem pra mim.
JC – Você já compôs em português, fez dois discos todos em inglês e atualmente flerta com o francês nas músicas novas. Por que essa ânsia por mistura de línguas? Qual vai ser o próximo idioma?
JM – (risos) Ah, provavelmente o espanhol mesmo! (risos) Mas isso é uma coisa natural… Surge na hora da composição mesmo. Por exemplo, foi assim com a Mademoiselle Marchand (música que fará parte do novo álbum de Júpiter, com letra em português e refrão em francês). Todo compositor tem um filminho branco na cabeça prestes a ser feito. Todo ele quer ter a sua… Satisfaction, sabe? Eu gostaria de ter a minha Michelle, ou Ma Belle… (NR – O autor se refere à música dos Beatles, cujo refrão é Michelle, ma belle). Isso do francês foi uma pitada na hora da inspiração. Na minha cabeça, ficou muito bonito o refrão de Mademoiselle Marchand em francês, aí eu deixei.
JC – Como você definiria a fase atual da sua carreira? Mudou muita coisa desde a última vez que você tocou no Recife?
JM – Ah, sim, com certeza… Quando foi que eu toquei no Recife? 1998? Nossa, faz muito tempo! Nesses oito anos, com certeza mudaram algumas coisas. Mas assim, mudaram e não mudaram. A essência em si não mudou. O lance foi que eu fiquei mais experiente como músico.
JC – Os personagens das suas músicas, como Walter Victor e Miss Lexotan, são reais?
JM – Hum… Eu diria que eles são misturas de várias realidades. Gente que eu conheço e que eu invento também. E não é só o Walter Victor e a Miss Lexotan 6mg. Tem também a Mademoiselle Marchand e a própria Síndrome de Pânico.
JC – Como vai ser o show do Coquetel Molotov? Você está preparando alguma surpresa?
JM – (risos) Surpresa? Hum… Na realidade não. Mas eu estou ansioso! Quero ser surpreendido pelo público pra gente fazer um show bacana. E acho que vou ser.
Multiinstrumentista é referência do rock gaúcho
Publicado em 22.08.2006
Júpiter Maçã, multiinstrumentista, compositor e cineasta, que integrou importantes bandas de rock gaúcho do início dos anos 90, como TNT e Cascavellettes, quando veio ao Recife pela primeira vez, em 1998, havia gravado apenas um álbum, o cultuadíssimo A sétima efervescência, lançado pela Acit/Antídoto em 1996. Fazem parte do disco hits como Walter Victor (tomador de panca!), Querida SuperHist x Mr. Frog, As tortas e As cucas, Lugar do caralho (regravada em 1997 por Wander Wildner em seu primeiro disco solo, Baladas sangrentas, e cuja autoria é por vezes inexplicavelmente atribuída a Raul Seixas) e Miss Lexotan 6mg (regravada pelos paulistas da Ira! em 1998, no álbum Você não sabe quem eu sou).
De lá para cá, muita coisa aconteceu na carreira de Júpiter. Ele adotou o novo alter-ego Jupiter Apple e lançou pela Trama o bossa-jazzy Plastic Soda (1999), todo com composições em inglês. O álbum foi premiado no ano seguinte com troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), além de ter recebido elogios de personalidades da música como Tom Zé, Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sean Lennon.
Em 2001, Jupiter fez sua estréia como cineasta e ator, com o média-metragem The apartment Jazz, uma divagação poética com loops visuais acerca das reflexões de dois homens sobre água pesada e filmes e livros em andamento e suas aventuras amorosas com garotas paranóicas. O filme rendeu a Júpiter uma premiação na categoria Contribuição Artística no Festival Livre Olhar, de Porto Alegre, em 2003.
Ainda em 2001, Jupiter lançou Hisscivilization (Nolandman/Voiceprint, com distribuição da Barulhinho), álbum que é uma perfeita trilha sonora para filmes de ficção científica. Utilizando cítaras e moogs, Jupiter fez um experimentalismo com referências ao rock de Manchester, ao concretismo alemão, às canções jazzy de cabarés franceses e alemães, à fase Beach Boys de Pet Sounds e Smile Smiley (1966 e 1967) e à movimentos de MPB, como a Bossa Nova e o Tropicalismo. As letras em inglês desobedecem à gramática inglesa e recriam um dialeto inovador. No álbum, Jupiter deixou de lado o trabalho de gravar todos os instrumentos e vozes das canções sozinho e contou com a ajuda de uma banda que o acompanha nas turnês até hoje.
Em 2003, Jupiter Apple lançou uma videoretrospectiva de sua carreira intitulada Pescando Jupiter segundo Huxley, com imagens raras de shows extraídas de seu arquivo pessoal, videoclipes e o filme The apartment Jazz.
Até o fim do ano, o agora novamente Júpiter Maçã (que deixou de lado o outro alter-ego Jupiter Apple – vamos rezar para que no futuro ele não dê uma de Prince e adote símbolos como seu nome) pretende lançar a esperada seqüência d’A Sétima Efervescência, um disco em português com toques de francês. As novas canções, entre as quais estão Mademoiselle Marchand e Síndrome de pânico podem ser conferidas nos show e estão disponíveis para download na página do artista no site da Trama Virtual.