Publicado em 29.07.2006
CONCEIÇÃO GAMA
A banda Clã, uma das mais importantes do rock português atual, fez seu primeiro show no Recife na última terça-feira, numa apresentação intimista no UK Pub. Na ocasião, o grupo concedeu uma entrevista ao Jornal do Commercio, na qual falou sobre a relação que tem com a música brasileira atual e as dificuldades de compor em português. Hoje, a Clã volta à cidade, para uma apresentação no Downtown Pub, a partir das 23h.
JORNAL DO COMMERCIO – Vocês ouvem música brasileira?
MANUELA AZEVEDO – Sim, ouvimos muita coisa, não só música atual, mas também coisas antigas, como Noel Rosa e Itamar Assumpção. Lá em Portugal a gente recebe muita música brasileira, tanto no rádio quanto na televisão. E nós da Clã somos grandes curiosos. Ouvimos tudo o que nos apresentam. Na primeira vez que viemos ao Brasil, em 1999, tivemos a oportunidade de conhecer o Arnaldo Antunes pessoalmente. Já conhecíamos o trabalho dele e, inclusive, já havíamos gravado H2omem, uma canção que ele nos enviou por fax assim que soube do nosso interesse em compor com ele. Arnaldo então nos deu uma lista de discos brasileiros que deveríamos ouvir. Coisas como Gilberto Gil e Jorge Ben estavam nela. Adoramos tudo.
JC – Vocês conhecem a música pernambucana?
MA – Conhecemos. A primeira coisa de Pernambuco que eu ouvi e que me causou grande impacto foi Chico Science e Nação Zumbi. A música deles realmente tocou meu coração. Mas, além dele, eu também ouço coisas como Mundo Livre S/A, Eddie e Mombojó.
JC – Vocês não têm guitarras, mas fazem rock’n’roll. Por que tirar a guitarra de uma banda de rock?
HÉLDER GONÇALVES – Na verdade nunca tiramos a guitarra, ela nunca existiu mesmo. (risos) O baixo que eu toco tem o som mais agudo que um baixo normal. É praticamente uma guitarra, só que com apenas quatro cordas.
JC – Mas vocês nunca procuraram um guitarrista?
HG – Não. Na verdade, fazer uma banda de rock sem guitarra não foi uma coisa que a gente pensou de propósito. Aconteceu naturalmente.
MA – Inclusive, o nosso primeiro CD, LusoQualquerCoisa, nem é tão rock’n’roll. Ele flerta bastante com o reggae.
JC – Então por que vocês resolveram mudar o estilo da banda?
MA – Não resolvemos mudar. As mudanças aconteceram de forma natural. A gente ouve muita coisa e gosta de muita coisa. Não temos problemas com mudanças. (risos)
JC – Vocês são naturais de Portugal, um país relativamente pequeno e muito próximo de outros países que falam línguas diferentes do português. No entanto, fazem questão de manter o idioma pátrio em suas composições. É difícil não se deixar contaminar?
MA – Pouca gente quer cantar em português, talvez por conta da relativa imposição do mercado internacional para que as músicas sejam cantadas em inglês. Em Portugal, nós tivemos um grande vazio cultural durante a ditadura de Salazar. As pessoas simplesmente deixaram de ouvir a música tradicional portuguesa e passaram a ouvir a música imposta pela indústria cultural. Coisas tradicionais como o fado, por exemplo, ficaram restritas a um número pequeno de ouvintes. No Brasil, pelo que observo, essa aculturação foi um tanto mais branda. Os brasileiros sempre procuraram resistir com a cultura popular. Nós resolvemos cantar em português justamente para preservar essa cultura de Portugal. Não é fácil trabalhar o nosso idioma para que ele soe bem musicalmente, mas fazemos questão de expressar nossos sentimentos com nossa língua materna.
JC – Como vocês se sentem tocando em um País que fala o mesmo idioma que vocês?
MA – É uma sensação de novo. É diferente de tocar na França ou na Espanha, onde as pessoas não falam a mesma língua que a gente. E é diferente de tocar em Portugal também porque lá, mesmo quando vamos a lugares distantes e onde nunca estivemos, as pessoas conhecem o nosso trabalho. Vendemos muitos discos e fazemos muitos shows em nosso país, temos a agenda sempre cheia. Aqui a recepção tem sido muito boa, apesar de as pessoas não conhecerem a nossa música. Os brasileiros são muito curiosos. E sabemos que aqui as pessoas, quando não gostam do que vêem, viram as costas e vão embora mesmo. Graças a Deus isso não aconteceu com a gente. (risos) Talvez as pessoas tenham interesse em conhecer nosso trabalho por conta das nossas parcerias com artistas brasileiros como Pato Fu e Arnaldo Antunes. Mas é fato que os brasileiros têm gostado do nosso som e têm nos recebido de forma bastante calorosa. E nós também adoramos tocar aqui.