Publicado em 18.06.2006
O especial Tocaia para Jacó será exibido em julho para todo o Nordeste através das 11 afiliadas do SBT
CONCEIÇÃO GAMA
Em julho, a TV Jornal exibe para todo o Nordeste, o resultado de um projeto dedicado à inovação da produção local e, particularmente, à divulgação da cultura pernambucana. O produto dessa iniciativa se chama Tocaia para Jacó, especial com 20 minutos, que será transmitido através das 11 afiliadas do SBT na região. O projeto, que tem roteiro e direção de Valdir Oliveira, conta a história da morte do vaqueiro Raimundo Jacó, assassinado por um colega de trabalho. A Missa do Vaqueiro, evento que faz parte do calendário turístico do Estado, é celebrada há 36 anos no local do crime.
A história se passa no ano de 1954, em Serrita, cidade do sertão pernambucano, localizada a 544 quilômetros do Recife. “Tocaia para Jacó pode ser definida como teledramaturgia de época. Houve uma extensa pesquisa de arte para a composição dos cenários, figurinos e adereços, a fim de preservar as características típicas do momento apresentado”, explica Valdir, gerente de produção e programação da TV Jornal. As cenas foram gravadas em Granito, cidade vizinha de Serrita, e nos estúdios da emissora.
“Tocaia para Jacó é uma ficção livre que se baseia nos diversos acontecimentos que rondam a morte de Raimundo Jacó. O roteiro foi construído a partir dos depoimentos das pessoas que acompanharam a história real da morte de Jacó, inclusive da própria Odília, esposa do vaqueiro. Há personagens reais, como Jacó (Marinho Falcão) e Odília (Lílian Kelen), mas também criamos novos personagens como, por exemplo, um casal de ciganos. Também introduzimos na trama papéis de pessoas que realmente existiram, mas demos a elas nomes fictícios, como o patrão de Jacó, que na trama se chama Alfeu (Jones Melo) e a patroa do vaqueiro assassino, nomeada Tatá (Magdale Alves)”, conta.
De acordo com Valdir Oliveira, embora o programa seja feito para TV, tem fortes elementos cinematográficos. “Usamos o padrão cromático do cinema e o timer da TV. A textura, as cores e as composições, que variam do plano geral a planos bem intimistas, são de cinema. No entanto, as cenas são curtas e fragmentadas, como na TV. Poderíamos dizer que a linguagem de Tocaia para Jacó é mais próxima da linguagem das minisséries, ainda nova no Brasil”, frisa.
Ele explica que também optou pelo uso de uma única câmera, diferentemente do que se faz numa novela, por exemplo, em que se usam cinco ou seis câmeras. “Dessa maneira, a edição do especial não é feita de forma aleatória. Não há aqueles cortes todos de novela. Há um reenquadramento específico cuidadosamente pensado para cada cena, para cada gesto”, completa.
A TV Jornal tem como tradição produzir e exibir programas que valorizam as manifestações culturais de Pernambuco. Ano passado, a emissora exibiu a série Vivências de vaqueiro, que mostrava, numa linguagem poética, as diferentes experiências de vida dos homens do Sertão. Em 2005, a TV Jornal também transmitiu ao vivo a Missa do vaqueiro para todo o Nordeste.
BAGAGEM – Tocaia para Jacó é o primeiro especial dirigido por Valdir Oliveira para a TV Jornal, mas não o primeiro de sua carreira. “Realizei alguns especiais para a Globo Nordeste, como A promessa de Jeremias (1995), que foi apresentado duas vezes. Também fiz o roteiro e direção de um quadro do programa Brasil total, apresentado por Regina Casé, também na Rede Globo”, conta Valdir.
Recentemente, Valdir recebeu menção honrosa no concurso Ary Severo pelo roteiro de Os seios de minha mãe. Ele também divide com Maria Pessoa o roteiro do curta Três contos de réis, que está em fase de finalização.
Valdir tem três livros publicados: um técnico sobre comunicação, Notícias no ar, e os infantis A lagartixa sapeca e Na toca do sapo. Até o fim do ano lançará Depois do desejo (contos) e O rei do Zodíaco, romance com prefácio de Raimundo Carreiro.
Emissora tem um passado de produções marcantes
Desde que foi inaugurada, em 1960, a TV Jornal, inicialmente chamada TV Jornal do Commercio, investe na teledramaturgia, tendo como mote o grande sucesso das radionovelas da antiga Rádio Jornal do Commercio (hoje Rádio Jornal) e do teleteatro da TV Tupi, de São Paulo.
A emissora também aposta nos talentos de jovens atores locais desde o início. Jones Melo (que faz parte do elenco de Tocaia para Jacó), José Pimentel e Carmem Peixoto são alguns dos atores que fizeram parte dos primeiros anos da teledramaturgia na emissora.
Nessa época, os atores da TV Jornal vinham do teatro, do rádio (radionovelas eram grandes sucessos no momento) e dos grupos de teatro universitários. Hoje isso mudou um pouco. Os atores já consagrados no teatro continuam fazendo parte dos especiais da emissora, como no caso de Magdale Alves e Jones Melo, atores convidados. Mas a maior parte do elenco de Tocaia para Jacó foi escolhida por meio de um concurso de atores, divulgado neste Jornal do Commercio no início de março.
“Fizemos a seleção porque precisávamos de artistas que se adequassem ao biotipo dos personagens reais e queríamos disponibilizar aos profissionais ainda desconhecidos a oportunidade de fazer parte do elenco da TV Jornal”, conta Valdir Oliveira.
Nos anos 1960, a teledramaturgia da TV Jornal bebia na fonte do cinema em aspectos técnicos, como enquadramento, iluminação e maquiagem, o que está sendo resgatado com o especial. No entanto, toda a produção era ainda muito incipiente, já que não existia o videoteipe e, portanto, todas as obras de teledramaturgia eram encenadas ao vivo e não havia edição de imagens.
Com o surgimento das fitas de vídeo, se tornou possível o aprimoramento técnico da teledramaturgia da emissora, como conta Carlos Bartolomeu no livro Testemunho de atores: um panorama do teleteatro da TV Jornal do Commercio, lançado mês passado.
No livro, o exemplo da TV Jornal do Commercio serve como pano de fundo para a história do teleteatro, que alcançou seu ponto alto entre 1960 e 1967. A emissora chegava até mesmo a ser considerada superior às do eixo Rio-São Paulo.
Essa busca pela qualidade técnica continua com Tocaia para Jacó. “Para filmar o especial, a TV Jornal adquiriu uma câmera HD de última geração, que dispensa fitas”, ressalta Valdir Oliveira.