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Noite para extravasar de maneira inesquecível com Wander Wildner

Julho 9, 2008

Publicado em 21.08.2006

A junção do punk com o brega, no show de Wander Wildner com pitadas de humor de The Playboys e Barbis Vocals, resultou em mistura democrática

CONCEIÇÃO GAMA

A festa 10 anos bebendo vinho, realizada na última sexta-feira no Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, foi um verdadeiro retrato do ecletismo brasileiro. A junção do punk com o brega, encabeçada pelo show de Wander Wildner, com as pitadas de humor das bandas The Playboys e Backing Ballcats Barbis Vocals resultaram numa mistura para lá de democrática. Na platéia, além dos já esperados punks e mescs, havia também hippies, góticos, patricinhas, entre outros.

As Barbis abriram a festa à 1h40 da manhã. Pareceu que os músicos haviam ido assistir ao show de Alceu Valença no Marco Zero e se esqueceram de que tinham o compromisso de tocar naquela noite. Originalmente, a festa estava marcada para as 22h. Muita gente cansou de esperar e foi embora. Apesar da demora, quando as meninas subiram ao palco, com seus vocais estridentes e desafinados, suas letras escrachadas e acessórios para lá de extravagantes, não houve quem ficasse parado. Além do repertório habitual que inclui canções como Socialize seu namorado e Priscila alma sebosa, e cover de Geórgia, a carniceira, da Ave Sangria, as garotas também cantaram clássicos como Maneiras, de Chico da Silva (aquela que diz “Se eu quiser fumar eu fumo / se eu quiser bebo”) e o bolero Quizas, quizas, quizas. Show divertido e superdançante.

Depois das Barbis, entraram em cena os Playboys. Os habituais terninhos, óculos escuros e instrumentos de brinquedo emolduraram o que foi um show verdadeiramente instigante. Os meninos têm carisma e presença de palco de sobra. As músicas, ora punk ora flertando com o rockabilly, com letras engraçadíssimas que retratam o cotidiano do Recife, animaram a eclética platéia. Destaque para a música nova Chico Buarque, além das antigas Gatinhas culturais do Burburinho e Paulo André não me ouve.

A grande estrela da noite, o gaúcho Wander Wildner, subiu ao palco por volta das 3 horas da manhã. Mais da metade da platéia já havia ido embora, mas os poucos que restaram souberam aproveitar o som do punk brega. Usando óculos de lentes vermelhas e apenas com um violão nas mãos, com luzes vermelhas no palco que que conferiram ao show um clima de cabaré, Wildner entoou sucessos de sua carreira, como Amigo punk e Quase um alcóolatra. O público cantou junto todas as músicas, com direito a bracinhos levantados balançando para um lado e para o outro. Mais brega impossível.

Na segunda metade do show, os músicos da The Playboys subiram ao palco para acompanhar o vocalista da Replicantes. Nessa parte da apresentação, o lado brega foi um pouco esquecido, dando lugar à veia punk latente de Wildner. Rato de porão abriu a seqüência punk e uma roda de pogo se formou na minguada e bêbada platéia. Depois de executar Lugar do caralho, de Júpiter Maçã, Wildner voltou à seqüência brega com um cover de – pasme – Sugar, sugar, da Archies, e a já esperada Mon Amour, meu bem, ma femme, de Reginaldo Rossi.

A festa terminou num clima total de paz e amor. Além dos que os mais que clássicos bêbados abraçados e chorando, também casais altamente inesperados, como um formado por um punk e uma patricinha e outro por dois homens. Se não fosse o azar de ter caído no mesmo dia da gravação do DVD de Alceu Valença, provavelmente o evento seria um sucesso total pois, apesar do suposto preconceito, as mais diversas tribos se reuniram para dar vazão ao seu lado brega – e basfond – de ser.

Conselho de Cultura faz bela homenagem a Alex

Julho 8, 2008

Publicado em 09.08.2006

Cronista do JC completou 80 anos no último sábado e tem recebido inúmeras homenagens

CONCEIÇÃO GAMA

O jornalista José de Souza Alencar, o Alex, recebeu ontem uma homenagem do Conselho Estadual de Cultura, pela passagem do seu aniversário de 80 anos. Na ocasião, estiveram presentes, além dos membros do Conselho, acadêmicos, escritores, artistas, políticos e amigos de Alex.

O poeta Marcus Acioly fez as honras da casa contando como foi difícil convencer Alex a aceitar a homenagem. “Passamos um sufoco porque Alex me ligou dizendo que não vinha e eu não podia fazer essa desfeita com os convidados. Então liguei para a redação do Jornal do Commercio e inventei que havia uma votação e a presença de Alex era imprescindível”, contou. “Alex dá menos importância para si mesmo do que o resto da população do Estado dá. Ele sempre se esconde em seu aniversário e foge de homenagens”, frisou.

Depois da apresentação, os membros do Conselho e amigos de Alex falaram da importância do colunista para a cultura de Pernambuco e para suas carreiras. “Lendo a coluna de Alex, é possível conhecer detalhes e peculiaridades da sociedade pernambucana, já que ele é uma espécie de antropólogo de campo do Estado”, explicou Geraldo Pereira, ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco. O pintor João Câmara Filho concorda. “Alex tem uma imagem impossível de ser dissociada da cultura pernambucana”, afirmou.

O cantor e compositor Getúlio Cavalcanti frisou a importância de Alex para muitos artistas pernambucanos. “A primeira chance que tive de aparece como cantor foi no programa de Alex na TV. Devo muito a esse grande colunista social, assim como muita gente que está aqui”, destacou.

“Aos 80 anos as lágrimas são fáceis. A partir de agora, todo dia tem importância única para ficar com as pessoas de que eu gosto. É muito bom ser lembrado por gente tão querida”, contou Alex, emocionado, ao final da homenagem.

Pernambuco onipresente em Natal

Julho 8, 2008

Publicado em 08.08.2006

Em seu segundo ano, o festival DoSol abriu espaço para a produção musical independente

CONCEIÇÃO GAMA

A segunda edição do Festival DoSol, realizada no último fim-de-semana (da sexta ao último domingo), mostrou que o evento tem potencial para se tornar um dos maiores do gênero no País. Em três dias, cerca de 9 mil pessoas compareceram ao Largo da Rua do Chile, em Natal, para prestigiar o trabalho de 38 bandas independentes vindas de 11 estados diferentes, sendo seis grupos pernambucanos: Parafusa, Bonsucesso, Carfax, Astronautas e Devotos. O grande destaque do festival ficou por conta dos pernambucanos da Devotos, que fizeram um show magistral no último dia do evento.

Quando Canibal e companhia subiram ao palco, parecia que um furacão havia tomado conta do festival DoSol. Formou-se uma roda de pogo gigante – coisa rara em Natal – e quem ficou de fora também se sentiu tentado a entrar. O bom e velho “punk rock hardcore lá do Alto José do Pinho” mostrou que ficou ainda melhor depois de dez anos de estrada. Enquanto Canibal gritava “vamos arrodear, arrodear, arrodear!”, o público potiguar entrava em êxtase.

Outro destaque do evento ficou por conta dos potiguares da Poetas Elétricos, que abriram o festival. O som da banda, como sugere o seu nome, é uma mistura de poesia com música eletrônica. Letras que poderiam perfeitamente pertencer a Tom Zé ou a Arnaldo Antunes se encaixam no som barulhento e perturbador da banda, que transforma qualquer ruído em música. A performance do grupo engloba computadores em cena, indumentárias hight-tech e um telão com imagens urbanas redesenhadas em pop-art. O show foi um grande pastiche pós-moderno muito bonito de se ver.

FÃS – A Mundo Livre S/A, que fechou o primeiro dia do evento, fez um show dançante e contagiante. E quem disse que Fred 04 não arrastava grandes multidões fora do Recife se enganou. O público potiguar tinha todas as músicas na ponta da língua e, mesmo com a maratona cansativa de muitas bandas se apresentando em um único dia, ficou até o final para prestigiar a apresentação, uma retrospectiva de carreira.

A Carfax, que se apresentou no segundo dia do festival, também fez um show correto e contagiante. O repertório da banda foi todo composto por músicas do primeiro disco da banda, O gosto antigo da novidade. Os vocais poderosos de Iana Beckman não precisaram de covers para cativar o público. A banda mostrou que tem potencial e conquistou a platéia.

Os paraibanos da Dead Nomads fizeram um dos shows mais legais do último dia do festival. A banda tocou seu punk rock autoral, com destaque para 1945 e Resposta, músicas cantadas em coro pela platéia. A banda fez ainda um cover de Blitzkrieg bop, dos Ramones, e uma versão hardcore de Bigmouth strikes again, dos Smiths, que levaram o público ao êxtase absoluto.

O festival DoSol cumpriu bem o papel de mostrar a cena independente brasileira, sobretudo a nordestina. Ele foi o retrato de que, para se fazer música boa neste País, não é necessário MTV e nem FM, apenas técnica, criatividade e carisma.

Banda portuguesa Clã faz rock’n'roll sem guitarras

Julho 8, 2008

Publicado em 27.07.2006

CONCEIÇÃO GAMA

É possível fazer rock’n’roll sem guitarras. Foi isso o que provou a banda portuguesa Clã na terça-feira em seu primeiro show no Recife, numa apresentação intimista no UK Pub. Dois baixos, dois teclados, uma bateria e vocais poderosos foram mais do que suficientes para fazer tremer toda a casa e arrancar aplausos da platéia. Hoje, a banda se apresenta no Festival de Inverno de Garanhuns, na Praça Guadalajara, a partir das 21h.

A Clã abriu a noite com a canção Carrossel dos esquisitos, um pop-rock com vocais a la Mutantes. Versos como “sou mais um no carrossel dos esquisitos/ gente feia a girar, não é bonito?” cresceram com os sussurros da vocalista Manuela Azevedo. Ela, aliás, é pequenina na estatura, no entanto toma todo o palco com os seus gestos, caras, bocas e carisma. No meio da música, rolou até uma brincadeira com a letra de I’m too sexy, do Right Said Fred.

Outro ponto alto do show foi a execução de O sopro do coração, do português Sérgio Godinho, uma faixa do primeiro disco da banda, LusoQualquerCoisa (1996). Teclados progressivos e e batidas que contrariam qualquer seqüência básica esperada mostram a identidade da banda, que faz um som muito peculiar. Pela sua qualidade musical, a Clã poderia perfeitamente figurar o hall das maiores bandas de rock da atualidade. No entanto, provavelmente por conta de seu repertório exclusivamente com composições em português, isso não aconteceu ainda. “Lá em Portugal existe uma praga de bandas que cantam em inglês. As pessoas têm preguiça de trabalhar a língua portuguesa para que ela soe bem. Mas a Clã faz questão de manter a cultura de Portugal viva”, disse Manuela no meio do show.

A banda fez ainda uma versão de Flores, clássico dos Titãs, apenas com voz e baixo. Esse foi um dos momentos emocionantes da apresentação, com a platéia cantando em coro. Outro destaque vai para a execução de H2omem, parceria com Arnaldo Antunes. “Não conhecíamos Arnaldo pessoalmente, mas admirávamos muito o seu trabalho. Fizemos então um convite para ele compor conosco e Arnaldo, muito generoso, nos enviou prontamente três músicas por fax, dentre elas esta que vamos tocar agora”, contou Manuela antes da execução.

Uma mulher da vida também foi uma das canções mais marcantes da noite. Em quase dez minutos de música, versos como “agora que sou já crescida, uma menina crescida/vais à vida e eu vou à minha vida” aliados aos vocais onomatopaicos de Manuela e ao solo de baixo feito por Hélder Gonçalves, que substituiu perfeitamente qualquer solo de guitarra que se preze, arrancaram aplausos calorosos do público.

O sotaque português da Clã causou um tanto de estranheza na platéia no início da apresentação. No entanto, a interpretação das letras feitas com coreografias pelos integrantes da banda e as performances quase teatrais de Manuela Azevedo deram ao público uma sensação de proximidade. As letras, que falam sobre as angústias humanas, pareciam brotar da alma dos Clã e, justamente por isso, sopraram diretamente no coração do público recifense, que pediu bis. A Clã faz novo show no Recife no próximo sábado, no Downtown Pub.

Mada aposta em novos talentos

Julho 8, 2008

Publicado em 09.05.2006

Moptop, Macaco Bongo e Los Porongas estão entre as promessas apresentadas no festival de Natal

CONCEIÇÃO GAMA
Especial para o JC

NATAL – A oitava edição do Música, alimento da alma – Mada, que aconteceu no último fim de semana em Natal, levou ao público os shows de mais de 20 bandas independentes. Maior festival de música do Rio Grande do Norte cumpriu o papel a que deveriam se propor os grandes eventos do gênero do País: revelar novos talentos. Um deles foi a carioca Moptop, que tocou no sábado e deixou o público em êxtase com seus potenciais hits, como Ninguém pra te esquecer e O rock acabou.

Moptop apresentou uma excelente relação no palco, com demonstrações de carinho entre os integrantes em pleno show. Eles fecharam recentemente contrato com a gravadora Universal e lançarão o seu primeiro CD em agosto. A Macaco Bong, que tocou na quinta-feira, foi outro destaque do Mada. O grupo matogrossense faz um rock instrumental de primeiríssima qualidade, simples e bem-feito. Vale destacar a excelente presença de palco do guitarrista Bruno Kayapy, que lembra bastante Jimmi Hedrix. Já a Los Porongas, vinda diretamente do Acre, fez uma apresentação do que seria o “rock amazônico nervoso”, como definiu o vocalista, Diogo Soares. E impressionou a platéia pela excelente qualidade musical. Com influências que vão de Alice in Chains a Luiz Gonzaga, a banda faz um mix autoral entre rock e música regional. Eles devem lançar o segundo CD, pela Senhor F e com produção de Philippe Seabra, da Plebe Rude, ainda este ano.

Os potiguares do Seu Zé fizeram um show fofo no último dia do festival. A apresentação foi repleta de elementos teatrais, seja na performance dos músicos, seja no figurino da banda e na iluminação de palco. As músicas do grupo, que têm letras sobre o Nordeste, desfilam entre o samba, o baião e o rock.

Também chamou a atenção o péssimo show da carioca Tantra. A apresentação, que teve participação especial de Marcelo Bonfá, ex-(re)L(i)egião Urbana, parecia a de uma bandinha de garagem, a começar pelo repertório, totalmente composto por covers. A única parte divertida do show foi quando o grupo tocou Kinky Afro, da Happy Mondays, com direito à uma performance à la Bez do baixista contratado pela Biquíni Cavadão, Patrick Laplan. Nem a reação histérica da platéia ao ouvir Fred Nascimento desafinar em Quando o sol bater na janela do teu quarto salvou o show.

O Mada se firma como um dos maiores festivais de música do Brasil. Este ano, compareceram ao evento uma média de 9 mil pessoas por noite. Os shows foram todos pontuais e o lugar onde aconteceu o evento, um espaço ao ar livre, é confortável e bem-estruturado. Chamou a atenção o respeito e o interesse do público potiguar pelo trabalho das bandas independentes. O Brasil precisa de mais festivais como o Mada, que façam uma seleção honesta de grupos desconhecidos do País inteiro, e realmente independentes, sem jabá ou pressão de gravadoras para emplacar projetos paralelos de artistas já consagrados.

* A jornalista viajou a convite da produção do evento