Publicado em 21.08.2006
A junção do punk com o brega, no show de Wander Wildner com pitadas de humor de The Playboys e Barbis Vocals, resultou em mistura democrática
CONCEIÇÃO GAMA
A festa 10 anos bebendo vinho, realizada na última sexta-feira no Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, foi um verdadeiro retrato do ecletismo brasileiro. A junção do punk com o brega, encabeçada pelo show de Wander Wildner, com as pitadas de humor das bandas The Playboys e Backing Ballcats Barbis Vocals resultaram numa mistura para lá de democrática. Na platéia, além dos já esperados punks e mescs, havia também hippies, góticos, patricinhas, entre outros.
As Barbis abriram a festa à 1h40 da manhã. Pareceu que os músicos haviam ido assistir ao show de Alceu Valença no Marco Zero e se esqueceram de que tinham o compromisso de tocar naquela noite. Originalmente, a festa estava marcada para as 22h. Muita gente cansou de esperar e foi embora. Apesar da demora, quando as meninas subiram ao palco, com seus vocais estridentes e desafinados, suas letras escrachadas e acessórios para lá de extravagantes, não houve quem ficasse parado. Além do repertório habitual que inclui canções como Socialize seu namorado e Priscila alma sebosa, e cover de Geórgia, a carniceira, da Ave Sangria, as garotas também cantaram clássicos como Maneiras, de Chico da Silva (aquela que diz “Se eu quiser fumar eu fumo / se eu quiser bebo”) e o bolero Quizas, quizas, quizas. Show divertido e superdançante.
Depois das Barbis, entraram em cena os Playboys. Os habituais terninhos, óculos escuros e instrumentos de brinquedo emolduraram o que foi um show verdadeiramente instigante. Os meninos têm carisma e presença de palco de sobra. As músicas, ora punk ora flertando com o rockabilly, com letras engraçadíssimas que retratam o cotidiano do Recife, animaram a eclética platéia. Destaque para a música nova Chico Buarque, além das antigas Gatinhas culturais do Burburinho e Paulo André não me ouve.
A grande estrela da noite, o gaúcho Wander Wildner, subiu ao palco por volta das 3 horas da manhã. Mais da metade da platéia já havia ido embora, mas os poucos que restaram souberam aproveitar o som do punk brega. Usando óculos de lentes vermelhas e apenas com um violão nas mãos, com luzes vermelhas no palco que que conferiram ao show um clima de cabaré, Wildner entoou sucessos de sua carreira, como Amigo punk e Quase um alcóolatra. O público cantou junto todas as músicas, com direito a bracinhos levantados balançando para um lado e para o outro. Mais brega impossível.
Na segunda metade do show, os músicos da The Playboys subiram ao palco para acompanhar o vocalista da Replicantes. Nessa parte da apresentação, o lado brega foi um pouco esquecido, dando lugar à veia punk latente de Wildner. Rato de porão abriu a seqüência punk e uma roda de pogo se formou na minguada e bêbada platéia. Depois de executar Lugar do caralho, de Júpiter Maçã, Wildner voltou à seqüência brega com um cover de – pasme – Sugar, sugar, da Archies, e a já esperada Mon Amour, meu bem, ma femme, de Reginaldo Rossi.
A festa terminou num clima total de paz e amor. Além dos que os mais que clássicos bêbados abraçados e chorando, também casais altamente inesperados, como um formado por um punk e uma patricinha e outro por dois homens. Se não fosse o azar de ter caído no mesmo dia da gravação do DVD de Alceu Valença, provavelmente o evento seria um sucesso total pois, apesar do suposto preconceito, as mais diversas tribos se reuniram para dar vazão ao seu lado brega – e basfond – de ser.